domingo, 28 de maio de 2017




África-Brasil

Por Franco de Rosa

Estava em Florianópolis e precisava voltar para São Paulo depressa. Arrisquei. Fui ao aeroporto, sem reservas. Por sorte, havia um passageiro desistente de última hora, assim peguei o único acento disponível. E sentei no corredor. Em uma fila apertada. Na janela estava um loirinha bonita, de cabelos encaracolados, que enviou a cara no vitrô e ali ficou. No meio, um negro enorme, vestido elegantemente um terço azul. Terno. Paletó, calça e colete.
Quando o avião começou a andar pela pista, se preparando para levantar voo, o camarada do meu lado começou a se agitar bastante. Colocava as mão nos ouvidos. Tirava. Se mexia. Girava os olhos. Demonstrava pânico mesmo. A moça enfiou ainda mais a cara na janela. E eu comecei a temer que ele viesse a ter um treco. Mas, assim que a nave se estabilizou e entrou em velocidade de cruzeiro. Ele se acalmou. Felizmente o voo é curto. Perto de 35 minutos.
Então vieram as comissárias de bordo trazendo sucos, agua e lanches. Quando entregaram o dele, ele imediatamente pediu outro, antes mesmo de abrir o seu pacotinho, que só continha um sanduba sem graça mesmo. Eu lhe ofereci o meu. Disse que não iria comer, pois tinha almoçado bem. E era verdade. Havia comido num bar, na vila onde estava hospedado, na Praia da Barra da Lagoa, um farto e delicioso “prato feito” com peixe do mar.
O sujeito devorou os dois pães com presunto e queijo. Agradeceu. Dizendo que acordara muito cedo e não teve tempo de tomar o pequeno almoço. Se desculpando ainda por ter ficado intranquilo durante a subida do avião. Devido aos seu sotaque e expressões usadas, em português castiço, percebi que ele era um cidadão angolano.
Conversamos o resto da viagem. Ele revelou ter sido paraquedista e que lutou na guerra. Participando de 27 missões em território Russo. Quando disse isso interrompeu a narrativa por um instante e me olhou fixamente. Depois continuou, explicando que fez o que se faz nas guerras. Coisas que muitas vezes o fazem acordar no meio da noite. Compreendi, e nada comentei. Seu súbito silêncio revelava que ele havia matado muita gente. Disse, que quando o avião levanta voo, sempre fica incomodado, mas ele precisa viajar pelo menos três vezes ao ano para o Brasil, onde vem comprar implementos agrícolas e equipamentos. Pois agora é um pequeno empresário da agricultura.
Falei então que falei a meu respeito. Que estava em Florianópolis a passeio, mas também trabalhando. Acompanhando a produção de um projeto que vinha sendo desenvolvido fazia 18 anos, a revista livro As Periquitas, com trabalho de 23 autoras. Que eu era autor de histórias em quadrinhos, mas trabalhava mais como jornalista e editor nos últimos tempos.
Então ele arregalou os olhos, e segurando meu braço esquerdo disse que, antes, até o final década de 1990 ele trabalhava no Jornal de Angola, como autor de banda desenhada. Ou seja, histórias em quadrinhos. Desenhando uma tira diária. O nome dele era Antonio Piçarra. Não consegui entender o nome da tira. Mas encontrei pela internet, Mankiko.
Então se anunciou que já estávamos sobre Cumbica. Que iriamos pousar. Desta vez, meu, agora “colega”, não se incomodou com a descida. Foi uma aterrisagem suave, daquelas que os passageiros aplaudem, quando o avião para, no solo. E Sergio apressadamente desceu, pois estava com um grupo de angolanos. Enquanto eu, tranquilamente me dirigi ao ônibus, que leva os passageiros ao saguão de desembarque do aeroporto.
Recordo agora, escrevendo estas linhas, que foi a partir daquele dia que comecei a prestar mais atenção nas coincidências que, desde sempre, aconteceram em minha vida.

Esta foi das grandes. Como foi acontecer isso? É uma questão de total sincronicidade. Só crendo em magnetismo, Lei da Atração e coisas afins, para justificar. Como pode? Entrar em um avião, onde só há um único acento disponível e me sentar ao lado de um cartunista? E...quantos cartunistas existem em Angola? Pela internet só consegui localizar uns 10. No Brasil somos em mais de 1000. Não é coincidência. Não pode ser. É Sincronicidade. Um conceito desenvolvido pelo notório psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung, para “definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado.” Em sua teoria julga tais eventos sincronísticos como algo que não acontece por acaso. Mas por terem um significado igual ou semelhante, que chamou de "coincidência significativa".”





Capitão Caatinga – o anti-herói do nordeste em SP
por Ataíde Braz (*)
Quem se lembra do Capitão Caatinga, personagem criado pelo Franco de Rosa e Seabra?
É certo que poucos se lembram, e muitos nem ouviram falar. No entanto é um marco da História dos Quadrinhos brasileiros. Foi publicado de 1974 a 1978 no jornal Noticias Populares. Talvez esta seja a causa do injusto esquecimento (ou desconhecimento), o enraizado preconceito contra aquilo que é popular, independente de seus méritos.
Na época em que foram publicadas as suas aventuras, as poucas tiras nacionais (e as muitas importadas) eram todas de humor. O Capitão Caatinga ousou ser diferente. Um herói sem poderes, sem colante e cueca por cima da calça.
Era um anti-herói quando eram abundantes os “mocinhos” acima do bem e do mal, sempre a salvar suas eternas noivas. O capitão era diferente. Enrolava-se com mulheres casadas e fugia de cornos. Não fugia por medo. Não. Fugia por que julgava justa a raiva do corno. Assim era o Capitão Caatinga, imoral, porém ético. Até certo ponto. Sua ética não resistia a um rabo de saia. Bom, quando a mulher era feia, a ética do capitão era férrea e incorruptível. Nestes casos mulher casada tinha que ser respeitada.
Ele não percorria o nordeste salvando oprimidos. Ele simplesmente ia vivendo e fugindo da policia. Lutando a sua guerra pessoal para sobreviver. De preferência ele fugia de conflitos, de brigas que não lhe dizia respeito, mas, se fosse pego em um fogo cruzado (e isso sempre acontecia), ele tomava partido do justo. E não fugia da raia!
Mas a maior vitória deste herói foi vencer o cerco dos importados e ter mais de 1000 tiras publicadas, com uma temática genuinamente nacional. É claro que havia muitos pontos fracos. Os autores tinham poucas informações sobre o nordeste, mesmo assim enveredaram pelo tema e criaram um ícone que, infelizmente, é pouco lembrado.
Capitão Caatinga é um marco por que ousou ser homem quando o preconizado era ser um semideus com super-poderes e uma mentalidade tacanha. Um homem, com seus defeitos e virtudes. Mas defeitos do que virtudes.
Uma HQ com diversas falhas, principalmente por causa da pouca experiência de seus autores na época. Mas ambos com uma intuição talentosa! Apesar das falhas, a trajetória vitoriosa do Capitão foi graças à união do velho com o novo. O Franco e o Seabra ousaram criar um personagens que fugia do padrão da época, mas dosaram essas novidades com alicerces conservadores, usando na narrativa os típicos “dogmas” das histórias de aventuras.
Esse é o ponto que admiro na HQ do Capitão e em minha opinião faz dele um marco da HQB. Se na época as HQ de terror tivessem utilizado essa formula ao tentar se modernizar, talvez tivessem evitado a decadência do tema. Fico na torcida para que o Capitão Caatinga seja revisto e atualizado por seus autores, para desbravar novamente os quartos das mulheres casadas e enfrentar volantes e cangaceiros...
(*) Ataide Bras é roteirista que, nascido em Pernambucano, migrou para são Paulo com a família aos 11 anos, em 1966. É autor da graphic novel “A Mulher Diabo no Rastro de Lampião”, que ganhou o prêmio 7º HQ Mix em 1995. O público de retirantes nordestinos migrantes e hoje radicados em São Paulo é um dos públicos-alvos fundamentais da presente proposta.

sexta-feira, 26 de maio de 2017



Sequência criada para o livro Biblioteca dos Quadrinhos, de Gonçalo Junior. Desenhos meus. Cores de Wanderley Felipe.


JUN2

Palestra com Franco de Rosa na Gibiteca

Público
 · Organizado por Gibiteca de Curitiba

quarta-feira, 24 de maio de 2017



Quando fiz esta foto de meus filhos Carolina e Daniel, em meados dos anos 80 sabia que estava registrando uma imagem diferente. Não imaginava que ficaria tão forte e emblemática. Ainda vejo nas estantes de alguns parentes, quando os visito. Curioso é que quando sonho com eles, na amaioria das vezes eles aparecem com esta idade.

A fugitiva

Tomei um taxi na Avenida Ipiranga, pedindo para ir até a Rua da Consolação. Era fim do dia. Já estava escurecendo. Depois que passamos do Cemitério, o motorista, sorrindo me disse, “Ainda bem que o senhor está aqui do meu lado.” Então lhe disse que não entendera.  Ele então contou que, faz uns três anos apanhou uma mulher também na Ipiranga que também pediu para ir até a Consolação.
Era domingo. Não havia movimento algum, estava garoando e anoitecendo.

Ela sentou no banco de trás, e não ao lado dele, como eu fiz. E, quando ele chegou no Cemitério, parou no semáforo de pedestres que tem em frente ao portão, porque o sinal fechara. Depois, seguindo adiante, se virou para perguntar à mulher onde ela iria ficar. Mas, para sua surpresa, a dama não estava. Imediatamente parou, para ver se ela tinha caído entre os banco...nada.
Ficou irritado, acreditando que ela fugira sem pagar a corrida. Porém também ficou matutando. Como ela teria descido do carro sem fazer barulho? Será que ela tinha mesmo subido no carro? Pois estava cansado. Trabalhava desde a madrugada, estava com sono. Preferiu acreditar que tudo não passou de imaginação.

Mas toda vez que passa em frente ao Cemitério da Consolação se lembra do ocorrido, que prefere acreditar que não aconteceu.

Mas...eu fora até a Consolação, para chegar na Livraria Comix Book Shop, que fica na sua travessa, a Alameda Jaú. Fui em busca de obras em quadrinhos, claro. E, xeretando as prateleiras, não pude deixar de adquirir, o singelo álbum de Gustavo Duarte, Taxi. (FR)